A nossa sociedade tem registado grandes transformações. Os avós de hoje não são os mesmos das gerações anteriores, assim como os netos. Os tempos mudaram, no entanto, há algo que permanece inalterado: a importância dos avós na vida das crianças.
Poucas pessoas são mais importantes no crescimento e desenvolvimento das crianças do que os avós. Os pais criam, sustentam e asseguram as rotinas do dia-a-dia, mas a verdade é que muitas das memórias mais doces da infância são os momentos passados com os avós.
Sejam literalmente memórias doces, das refeições em casa dos avós, dos bolos feitos com os netos (em que rapar a taça do bolo era a recompensa para os ajudantes), ou dos passeios com a inevitável bolachinha, chocolate ou gelado; sejam memórias dos longos dias de férias passados com os avós, onde reinava o tempo e calma para explorar as relíquias familiares, os álbuns de fotografias, as casas mais antigas, os passeios pelo bairro ou pela terra diferente do dia-a-dia; ou ainda das memórias das preciosas lições de tricot, crochet, ponto cruz, arraiolos, carpintaria ou outros trabalhos manuais que organizam as mãos e a cabeça e são uma excelente forma de treinar a paciência, a atenção e as competências manuais indispensáveis em muitas profissões (incluindo a médica!).
Para os avós, os netos são uma segunda oportunidade de viverem momentos que já passaram com os seus filhos, e que tantas vezes passaram depressa demais. Sem o peso da responsabilidade ou o stress do dia a dia, os avós trazem a vantagem dos anos e da experiência, que lhes permite relativizar e ter uma perspetiva diferente sobre o que importa na educação das crianças.
A maioria das relações entre avós e netos caracteriza-se pelos afetos, o mimo tão natural, pelo cuidado e pela atenção às necessidades da criança. Este repositório de ternura representa um valioso tesouro emocional que pode ser revivido nos momentos difíceis ao longo da vida.
Avós e netos precisam de tempo juntos, sem a presença dos pais, para que possam criar vínculos e relações autónomas, com as suas próprias dinâmicas. Seja uma rotina semanal em que os avós vão buscar os netos à escola, o almoço de família ao fim-de-semana, uma noite ocasional (ou regular) em casa dos avós para que os pais possam ter um tempo a dois, ou uma parte das (intermináveis) férias de verão, enquanto os pais ainda trabalham. As crianças, pequenas e grandes, adoram rituais, como um lanchinho especial, o passeio ao mesmo sítio ou a história antes de dormir.
Algumas tradições familiares, como as épocas festivas do Natal e da Páscoa, são frequentemente transmitidas de avós para netos. Não devemos subestimar o poder das histórias, de haver uma narrativa oral, pessoal e transmissível, das aventuras (e desventuras) da família. Há sempre um tio, primo ou avô com quem a criança se parece, que tinha as mesmas expressões ou fazia as mesmas brincadeiras.
Até as histórias da infância dos pais – das suas brincadeiras e asneiras – revelam uma faceta dos pais que nem sempre os filhos conhecem. Esta relação com os avós (e restante família alargada) dá às crianças raízes e uma sensação de pertença, algo que todos procuramos e que lhes permite, mais tarde, voar sem esquecer quem são e de onde vêm.
Neste Dia Nacional dos Avós, celebremos a vida daqueles que nos antecederam, agradeçamos por tudo o que recebemos e permitamos que os nossos filhos possam estar, física ou virtualmente, com quem tanto lhes quer.
Isabel Saraiva de Melo
Coordenadora do Serviço de Pediatria do Hospital Cruz Vermelha
Siga as nossas redes sociais – Facebook, Instagram, LinkedIn e YouTube – e fique a par de tudo o que se passa no Hospital Cruz Vermelha.
